CONHEÇA: "REZADEIRA - O CASO DA FAMÍLIA CABRAL"

CONFIRA ESTE ENSAIO FOTOGRÁFICO SOMBRIO DE UM HOSPITAL ABANDONADO

Capa do ensaio
[Aviso: proibida a reprodução das imagens sem os devidos créditos]
Ainda neste mês fiz o meu primeiro ensaio artístico em parceria com os amigos Sávio Emanuel e Espedito Duarte. O ensaio foi realizado para a disciplina de Fotografia; somos graduandos em Jornalismo. Conversando com uma amiga da faculdade, Bia, sobre o trabalho, ela me lembrou da existência do Hospital Manuel de Abreu, aqui na nossa cidade, Crato, Ceará. A partir da sugestão pensei como poderia explorar o ambiente, fiz um rascunho da pauta e os meninos, Sávio e Espedito, amadureceram a ideia comigo. Assim definimos o assunto do ensaio, que foi concluído com as seguintes 25 fotografias (26 com a capa).

Torre do relógio com um cacto no topo | Foto: Carlos Rodrigo
Fizemos o ensaio com a minha Canon T5i e o Intitulamos Vergesslichkeit ("esquecimento" em Alemão). Foram quase 500 fotos durante a manhã do dia 05/07/2017. Distribuímos o tempo do trabalho entre cada um de nós, pois só tínhamos uma câmera disponível. Eu fui o primeiro a fotografar; a primeira imagem da ocasião que capturei foi essa que está acima. A maioria das fotos selecionadas no processo de edição foram de minha autoria, mas parte destas foram pensadas em conjunto. Então foi realmente um trabalho em equipe.

Vista de um dos prédios a partir de um dos pátios | Foto: Carlos Rodrigo

Por que nomear o ensaio em Alemão? Para contextualizar com a história do hospital. Segundo nossos breves estudos, o Hospital Manuel de Abreu foi construído por Alemães na década de 40. Foi construído para ser um seminário, na verdade, e de fato o foi até a década de 60, quando se tornou um hospital. Em 2012 foi colocado a venda pelos proprietários. E, embora uma ala ainda esteja funcionando (atendendo pacientes), o restante se encontra completamente abandonado, com estrutura em estado de risco.

Na edição das imagens, optamos por esfriar os tons das cores para enfatizar o clima sombrio e atingir o nosso objetivo, que é fazer o "leitor" das nossas fotos sentir a presença da morte em diferente aspecto fúnebre. A técnica das cores frias também é muito usada nos filmes de terror.

Foto: Carlos Rodrigo
Sim, a torre do relógio acima é a mesma. Decidimos incluir as duas fotografias porque, evidentemente, elas foram trabalhadas com ângulos diferentes e possuem elementos diferentes. Não queríamos escolher entre as duas; gostamos muito de ambas. Esta foi capturada a partir do outro pátio. A cruz no topo fez toda a diferença, ela ressalta a percepção do ambiente.


Vista a partir de um dos pátios | Foto: Carlos Rodrigo
Como podem perceber, as plantas sem poda, o mato crescendo desenfreadamente, deram um contraste admirável. Apesar das plantas vívidas no lugar mórbido, no canto do mesmo pátio da fotografia acima temos uma árvore quase morta, e moscas se assentavam nela. A intenção do ensaio foi justamente explorar uma relação entre vida e morte; a morbidez em um lugar que já funcionou para salvar vidas.

Foto: Carlos Rodrigo
A estrutura europeia do hospital é muito bela. Enquanto fotografávamos, conversávamos sobre o quão importante seria restaurar a construção. O dia em que, possivelmente, este estabelecimento for derrubado, será muito triste.

Foto: Carlos Rodrigo

Foto: Carlos Rodrigo


Foto: Carlos Rodrigo
Nós nos esforçamos bastante para tentar reproduzir o ar misterioso do local. Você não tem a sensação de que irá encontrar, ou aparecerá repentinamente, em alguma dessa janelas e portas, um alguém te observando? Eu senti em peso essa sensação. O vento batia as portas em todo o grande hospital (cerca de 58.000 m²). Era comum escutarmos barulhos que não sabíamos de onde vinham. 

Foto: Carlos Rodrigo
O lugar era rico em detalhes. Olhem esse cofre no canto do pátio. Quanta história escondida não supomos com essa imagem? Ao mesmo tempo, não é possível esquecer as janelas e portas misteriosas na profundidade dessa fotografia. O cenário é perturbador, ainda mais quando vem a mente o questionamento de quantas pessoas já não morreram lá dentro.

Foto: Carlos Rodrigo
O lugar está interditado, mas entramos com autorização de uma senhora da coordenação. Foi difícil convencê-la a nos deixar entrar, falou-se em termo de responsabilidade. De início, ela nos levou nos lugares menos perigosos, porém acabou nos deixando a vontade, foi cuidar dos seus afazeres e nós saímos explorando várias áreas. Entramos até a sala de isolamento, que exalava doenças pelos materiais descartados no chão; logo saímos, com medo. Só não entramos na torre, ela poderia desabar. Porém, eu teria entrado se meus amigos tivessem me dado chance.

Foto: Carlos Rodrigo
Sim, a fotografia acima é a mesma usada na capa, porém com edição diferente. Um ensaio fotográfico se constitui de uma série de fotografias com determinados padrões. Neste caso, um dos padrões do nosso ensaio é a edição em cores esfriadas. A edição na outra imagem foge dessa característica e, portanto, não poderia se encaixar aqui.

Existe uma história interessante sobre quando fiz essa foto. Eu alterei as configurações da câmera para aquela cena; estava numa espécie de sótão com meus amigos. Mergulhei tanto naquele espaço que acabei demorando um pouco...(As duas fotos seguintes neste post são do mesmo cômodo). Meus amigos, então, desceram para explorar outros lugares e eu fiquei sozinho. Quando me posicionei para capturar a fotografia em questão, coloquei meu olho direito na ocular e apertei o botão, vi um tipo de fumaça, através da ocular, passando na frente da minha lente. Foi assustador, porque quando tirei o olho da ocular, a fumaça não estava mais lá.

Aproximando a imagem, no canto direito, é possível enxergar a marca de uma mão na parede. Existem várias coisas do tipo no Hospital Manuel de Abreu; placas com sangue artificial e etc. Acreditamos que o estabelecimento foi "decorado" para a gravação de um filme independente.


Foto: Carlos Rodrigo


Foto: Carlos Rodrigo

Foto: Espedito Duarte

Os vitrais eram lindos. Alguns estavam quebrados, não era o caso desses. Foto: Carlos Rodrigo

Foto: Carlos Rodrigo

Foto: Sávio Emanuel
Essa imagem que o Sávio pegou explora com tanta exatidão a solidão no meu imaginário! É uma foto fantástica. Ela segue a linha das demais fotografias. É misteriosa. O que existe além do recorte da imagem? Qual a visão além desse enquadramento? Instigante.

O hospital se encontrava repleto de documentos velhos. A imagem mostra documentos de 2010, mas tinham documentos da década de 60 | Foto: Carlos Rodrigo

A encubadora se encontrava na mesma sala dos documentos empilhados na estante | Foto: Carlos Rodrigo

Manômetro sobre uma das janelas da fachada do hospital | Foto: Carlos Rodrigo

Foto: Carlos Rodrigo

Foto: Carlos Rodrigo
Se você prestar bem atenção, notará: a imagem acima está de cabeça para baixo. Decidimos fazer isso para expressar a sobrenatural que o ambiente nos passava.

Foto: Carlos Rodrigo

Foto: Sávio Emanuel

Observe bem o foco na aranha | Foto: Carlos Rodrigo
Em suma, o sentimento de abandono foi o mais marcante quando demos as costas para o hospital. Uma estrutura tão bonita, que faz parte da história da cidade, posta a venda sem limpeza sanitária, sem manutenção, fadada a se tornar ruínas. Vergesslichkeit foi um título bem escolhido, não? Deixe seu comentário, gostaríamos de saber sua opinião sobre o nosso trabalho.

MEU LIVRO, "RESSUÊNCIA", SERÁ LANÇADO AINDA EM 2017


Quem me segue nas redes sociais (Facebook, Instagram, Twitter) já deve saber boa parte do que falarei aqui. Ressuência é um livro que mistura Ficção Científica e Suspense Sobrenatural. Ainda não foi acertado com a Editora uma data de lançamento fixa, mas prevemos que acontecerá em Outubro / Novembro de 2017.

PORQUE VOCÊ NÃO DEVE DIZER QUE UMA IMAGEM VALE MAIS DO QUE MIL PALAVRAS

Imagem: Google
"Uma imagem vale mais do que mil palavras" foi dito por Confúcio (551 a.C. - 479 a.C.), popular Filósofo chinês, para expressar o poder da fotografia na comunicação. A frase pode ser facilmente desconstruída com uma leitura do artigo "Imagens do passado e do futuro: o papel da fotografia entre memória e projeção", por Ana Taís Portanova Barros.

Portanova trás uma distinção entre Discurso Verbal e Discurso Visual. Segundo ela, a discurso verbal analítico tem a capacidade de argumentar e demonstrar; a fotografia não tem. Veja a imagem abaixo:


Desconsiderando a legenda da fotografia (e o jornalismo também), que outros indicadores teríamos do fato registrado? Como saberíamos o local, data e turno em que aconteceu o incêndio? Signos (entenda por 'signos' elementos na imagem capazes de situar o 'leitor') como os roupas dos bombeiros talvez sirvam para expressar temporalidade na visão de algumas pessoas; que tenham o conhecimento de que o atual modelo, por exemplo, possua algo peculiar em relação aos trajes anteriores do corpo de bombeiros do país. Mas, o signo estaria explícito apenas para as pessoas que tivessem esse conhecimento pré-estabelecido e, ainda assim, haveria a possibilidade da imagem inteira não passar de uma encenação ou mesmo montagem feita no photoshop. Portanova diz que os pressupostos sintéticos da fotografia são ambíguos; ela favorece o "vôo da imaginação".

Ana Taís Portanova Barros,
autora contemporânea brasileira.
Entretanto, o da autora objetivo não é criar um embate entre fotografia e palavra. Ela reconhece a importância de ambos e de como se complementam. A questão é: a fotografia não desempenha a função que o senso comum acredita.

No capítulo primeiro do livro "Ética, Jornalismo e Liberdade", Francisco José Karam diz que ao ler uma imagem, para compreendê-la, nós a traduzimos em palavras e o que representam. Segundo Karam, seria inadmissível aceitar que se diga valer uma imagem mais do que mil palavras, como se nessa imagem "não houvesse milhares de palavras ou conceitos".

Karam e Portanova tem argumentos sobre a imagem que caminham no mesmo sentido. Para Portanova, a interpretação que temos da imagem muda conforme os contextos espaço-temporais nos quais estamos inseridos. "As pessoas percebem imediatamente uma imagem de acordo com a acumulação anterior do saber e da particularidade com que ela foi recebida" escreveu Karam.

Espero que tenham gostado da explicação. Pretendo postar novos assuntos em breve. Deixa seu comentário e segue o blog no fim da página (;